A exaustão dos cuidadores caracteriza-se como um esgotamento que ultrapassa o cansaço
físico, revelando-se um fenômeno que integra o psiquismo, a biologia e a estrutura social.
Nesse sentido, são homens e mulheres capturados por uma fantasia de onipotência,
acreditando serem os únicos capazes de suprir as necessidades alheias.
No entanto, quando a realidade impõe limites e a melhora dos pacientes ou assistidos não
ocorre, o "ideal do eu" heroico é ferido, gerando uma culpa punitiva. Trata-se de um excesso
não simbolizado, que converte o cuidado em uma exigência mortificante, onde o corpo e a
mente adoecem para expressar o que a palavra não consegue dizer.
Ademais, a exaustão causa alterações físicas no sistema nervoso central, pois a
hipervigilância constante ativa o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal. O que resulta em um
banho crônico de cortisol, prejudicando a memória e a regulação emocional, além de gerar
irritabilidade e apatia.
Essa crise é também um reflexo de desigualdades estruturais, em que a responsabilidade
recai majoritariamente sobre as mulheres, em uma divisão sexual do trabalho que invisibiliza
o esforço e isola os indivíduos.
Sendo assim, é imperativo que os cuidadores encontrem espaços de escuta analítica e suporte
social, porque enfrentam um ciclo de fragilidade, precariedade, risco social, desproteção e
privação. Isso exige políticas públicas robustas para transformar o cuidado em uma prática
humanizada que não anule a existência de quem exerce essa profissão.
Jackson Buonocore
Sociólogo, psicanalista e escritor
buonocorejcb@gmail.com