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A machosfera: red pills e legendários
Publicado em 19/03/2026 20:08
Jackson Buonocore

A ascensão da “machosfera”, capitaneada pelos red pills e por movimentos como os legendários, revela uma profunda crise de identidade masculina diante do colapso das certezas patriarcais. Ambos são movimentos reacionários que mobilizam mecanismos de defesa contra a castração simbólica. A red pill encena uma paranoia coletiva sob a ótica freudiana do despertar para uma suposta dominação feminina: o homem, incapaz de lidar com a perda de hegemonia, projeta nas mulheres a culpa por suas frustrações. O discurso de homens de alto valor mascara um narcisismo ferido que, para não sucumbir à depressão, recusa o luto pelo privilégio perdido.

Já os legendários transmutam essa angústia em rito. O movimento busca restaurar a coesão do clã por meio da hierarquia e do sacrifício físico. Assim, a subida da montanha e a exaustão extrema funcionam como uma tentativa de regressão ao arcaico. O uso de arquétipos como o leão ou o guerreiro tenta preencher o vazio existencial deixado pela ausência de ritos de passagem na modernidade. Contudo, ao buscar uma identidade inquebrável, esses grupos negam a alteridade e a sensibilidade, confundindo o quebrantamento religioso com a elaboração psíquica de traumas. Eles falham ao oferecer a submissão como cura, reforçando um ego inflado.

Portanto, a verdadeira evolução masculina não reside no isolamento na montanha ou no niilismo das telas, mas na coragem de sustentar a falta e habitar um mundo em que o poder não é mais o único mediador do desejo.

 

Jackson Buonocore

Sociólogo, psicanalista e escritor

buonocorejcb@gmail.com

 

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