O alto índice de feminicídios no Brasil, que atinge marcas trágicas diariamente, não pode ser lido como um conjunto de fatalidades isoladas. Ele é o sintoma horroroso de uma arquitetura de opressão que combina patologias psíquicas, herança patriarcal e deturpações religiosas.
O feminicídio revela um funcionamento regido pelo ódio narcisista: quando as mulheres afirmam sua autonomia, os agressores as percebem como uma castração simbólica. Atos de violência extrema surgem como manobras para tamponar a angústia masculina, tentando reduzir o corpo da mulher a um objeto sob controle total.
Esse machismo estrutural opera como o motor da dominação. Os crimes ocorrem sempre que as mulheres subvertem papéis tradicionais, desafiando a masculinidade tóxica. É um cenário de uma pedagogia do terror, onde a violência serve para silenciar e matar, revelando falhas do Estado que, por omissão, acaba sendo conivente.
Soma-se a isso a forma como interpretações fundamentalistas de textos sagrados são usadas para santificar a submissão das mulheres, sendo uma reação conservadora contra o protagonismo feminino, o qual requer o desmonte da cultura da misoginia.
Desse modo, o aumento da violência é uma resposta brutal ao avanço dos direitos das mulheres. É uma ferida aberta que exige cura profunda em todas as esferas do pensamento e da ação pública.
Em suma, é fundamental a implementação da educação de gênero e o fortalecimento de redes de proteção que enxerguem as interconexões de cor ou raça e classe.
Jackson Buonocore
Sociólogo, psicanalista e escritor
buonocorejcb@gmail.com