Embora o imaginário popular insista em buscar uma face monstruosa para os agressores sexuais, a realidade revelada pela sociologia e pela psicanálise é muito mais perturbadora: não existe um perfil único. O que une esses indivíduos não é a aparência, mas a dinâmica da violência. A agressão sexual, que abrange desde a pedofilia até o estupro, não é um subproduto de um desejo sexual incontrolável, mas um exercício brutal de controle.
A maioria dos agressores faz parte do círculo de confiança das vítimas — parentes, amigos e figuras de autoridade. Transitando livremente entre todas as esferas sociais, eles são operários, pilotos, ministros, médicos e religiosos. Muitos utilizam a máscara da amabilidade para seduzir não apenas a vítima, mas também suas famílias, ocultando uma tríade perversa: falsidade, insensibilidade e crueldade.
A gratificação desses sujeitos é extraída da vulnerabilidade. Eles buscam o domínio sobre crianças, mulheres e idosos, utilizando o ato sexual como ferramenta para desumanizar o outro e descarregar sua própria raiva. Esse comportamento desviante é alimentado por uma cultura patriarcal que reforça o mito do homem como "predador natural", conferindo uma camada de normalização ao crime.
Com altas taxas de reincidência, o agressor sexual desafia o Estado e a sociedade. Compreender as motivações psicológicas e as raízes sociais por trás desses delitos é o único caminho para podermos avançar em políticas eficazes de prevenção, combate e, sobretudo, punição.
Jackson Buonocore
Sociólogo, psicanalista e escritor
buonocorejcb@gmail.com